Como Trump quer deter o silencioso avanço chinês na América do Sul

12/01/2026

Fonte: O globo Por Bruno Rosa — Rio de Janeiro

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Região está na disputa entre China e EUA por concentrar a segunda maior reserva de petróleo do mundo, atrás do Oriente Médio. Empresas chinesas se tornaram sócias de reservas no Brasil

Pouco depois de os Estados Unidos capturarem Nicolás Maduro em Caracas, há uma semana, o Departamento de Estado americano publicou uma foto do presidente Donald Trump com uma frase: “Este é o nosso hemisfério”. Foi uma referência à renovação da Doutrina Monroe, de domínio das Américas pelos EUA, em curso na Casa Branca. No entanto, concordam analistas, a frase poderia muito bem ser substituída por “Este é o nosso petróleo”.

Trump nem fez questão de esconder que o controle do comércio da commodity mais importante do planeta está no centro da motivação da intervenção militar na Venezuela, sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região vai para o centro da disputa global pelo ainda cobiçado recurso mineral por concentrar a segunda maior reserva do mundo, atrás do Oriente Médio.

Dados do setor apontam não só o aumento das compras de petróleo sul-americano pela China nos últimos anos, mas também uma transformação silenciosa do país, de cliente a detentor de reservas na região.

Essa disputa entre EUA e China tem razão econômica: as duas maiores economias do mundo consomem 35% do petróleo global, diz a Agência Internacional de Energia.

Para especialistas, a ação de Trump na Venezuela — dona da maior reserva conhecida do mundo, com produção atual longe do potencial — é parte de sua tentativa de redesenhar a geopolítica energética do continente, reforçando a presença de petroleiras americanas na América do Sul para conter o avanço das chinesas em meio a uma onda de investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas que se abrem em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina. Neles, empresas americanas e chinesas já disputam reservas estratégicas diretamente.

Os principais fornecedores da China na região são Brasil e Venezuela, que somam cerca de 10% de todas as importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a década de 2010, petroleiras chinesas passaram a se associar a outras, como a Petrobras, para atuar na produção de óleo e gás na região, assegurando acesso a reservas estratégicas como as do pré-sal brasileiro não só como cliente.

A movimentação ainda não faz sombra à atuação das americanas, mas tende a crescer com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul.

 

Atuação discreta

 

Especialistas observam que essa expansão chinesa é “silenciosa”, com petroleiras que têm atuação discreta nos países e cujas cifras investidas escapam dos principais levantamentos do setor.

Muitos investimentos chineses no setor são feitos em associação com empresas de outros países e por meio de aquisição de ativos de outras companhias de fora, sem chamar a atenção nas estatísticas de investimento estrangeiro. Essa característica faz com que os investimentos da China no setor na América Latina sejam subestimados.

Um levantamento da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), por exemplo, mapeou US$ 47,5 bilhões em investimentos em óleo e gás na região, entre 2020 e 2024, sendo US$ 1,3 bilhão chinês. Já o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) apurou US$ 6 bilhões em investimentos chineses no setor só no Brasil no período.

— Os EUA são os principais investidores na região por meio de relações antigas, sobretudo em petróleo, mas a China tem crescido na América Latina, com investimentos amplos no setor e também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura — diz Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio. — Agora, os EUA vão tentar consolidar sua presença e têm mostrado que podem recorrer a meios militares para que a América Latina continue sendo uma zona de influência exclusiva, coibindo a presença chinesa.

Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, também vê incômodo aos interesses dos EUA na expansão chinesa, mas acredita que a ofensiva de Trump não deve afastar a China do petróleo sul-americano. O país asiático precisa dessa fonte de energia, ainda que invista pesado em renováveis. Para o especialista, o jogo geopolítico está apenas começando na região:

— O fornecimento de 400 mil a 450 mil barris por dia da Venezuela para a China é algo fácil de ser suprido por outros países, principalmente num mercado em baixa e bem abastecido no momento. Por enquanto, é mais uma sinalização política do que um impacto econômico na China. A sinalização americana foi clara ao ser mais assertiva na presença e no controle americano na América Latina. Não espero nenhuma mudança brusca da diplomacia ou pragmatismo econômico chinês em relação à América Latina, que é o principal parceiro comercial de vários países da região.

O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello espera mais investimento chinês:

— A China é o principal comprador de petróleo do Brasil, cerca de 60% das exportações brasileiras. Enquanto houver leilões no Brasil, haverá presença chinesa. É uma questão de oportunidade. Há muita incerteza sobre como será o processo de transição na Venezuela, mas há um interesse claro da China na região.

Mudança de estratégia

 

Até o início dos anos 2000, a exploração de petróleo em países sul-americanos que abriram o setor à concorrência, como o Brasil, tinha empresas europeias e americanas como protagonistas.

Isso começou a mudar nos anos 2010, quando os EUA passaram a direcionar suas atenções para o seu próprio shale gas (gás de xisto que deu ao país a autossuficiência), abrindo espaço para a incursão de estatais chinesas na região como investidoras, fazendo aquisições ou se associando a consórcios que operariam, por exemplo, os megacampos do pré-sal em parceria com a Petrobras, lembra Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da FGV.

Neste período, a China também intensificou sua busca no mundo por outros insumos para seu crescimento acelerado, como cobre e minério de ferro, acompanhados do crédito de seus bancos estatais e investimentos em infraestrutura nos países-alvo.

No Brasil, as chinesas CNOOC, CNPC e Sinopec já respondem por 6,2% da produção de petróleo, cerca de 305 mil barris por dia. Ainda estão atrás das europeias (como Shell, Total, Petrogal e Equinor), com mais de 920 mil barris diários (19%), mas à frente das americanas, que se concentram atualmente em campos brasileiros ainda em fase de exploração. A Exxon produz no Brasil hoje 7 mil barris diários, mas, com a Chevron, soma 40 áreas em desenvolvimento, contra 28 das chinesas.

 

Influência sobre o preço

 

O pesquisador da FGV observa que, com Trump, os EUA voltaram a ver o petróleo como recurso estratégico. O republicano indicou a interlocutores semana passada que quer influenciar o mercado para baratear combustíveis nos EUA com a queda do preço do petróleo, da faixa atual de US$ 60 para US$ 50, o que pode colidir com os interesses das petroleiras.

A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou destaca o “elevado risco político” e a “fragilidade” estrutural do país. Seriam necessários ao menos R$ 100 bilhões em investimentos para retomar a capacidade de produção que a Venezuela já teve. Trump quer que as petroleiras americanas façam esses aportes em troca de altos lucros, mas executivos saíram cautelosos de uma reunião com ele na sexta-feira.

— Do outro lado, a China vai buscar diversificar seus investimentos — pontua Paz.

Nos leilões recentes no Brasil, americanas e chinesas foram os destaques no pré-sal e em novas áreas como as bacias marítimas de Pelotas, no Sul, e Foz do Amazonas, no Norte. O mesmo se dá no Suriname e na Guiana, que recebeu investimentos de US$ 13 bilhões em 2024, e conseguiu fazer chineses e americanos se tornarem sócios no principal bloco de sua porção da Margem Equatorial.