Guarda Revolucionária do Irã alega interceptação de dois navios cargueiros Estreito de Ormuz
23/04/2026

COMPARTILHE
Agências de tráfego marítimo confirmaram três incidentes entre navios mercantes e lanchas rápidas iranianas, embora o paradeiro das embarcações e a extensão dos danos individualmente provoquem dúvidas
A Guarda Revolucionária do Irã, corpo armado mais ideológico da República teocrática, afirmou ter interceptado nesta quarta-feira dois navios cargueiros que tentaram cruzar o Estreito de Ormuz, a rota naval por onde escoava 20% da produção mundial de petróleo e gás antes do início da guerra com EUA e Israel e ponto central no impasse entre os países durante as negociações de cessar-fogo. Agências de monitoramento de tráfego naval registraram três ataques lançados por lanchas rápidas iranianas contra embarcações mercantes, cujos proprietários não confirmam terem sido de fato interceptadas — embora as ações hostis representem uma escalada importante um dia após o presidente dos EUA, Donald Trump, estender indefinidamente a trégua com Teerã, mas manter o bloqueio aos portos do país.
"A força naval do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica identificou e interceptou nesta manhã, no Estreito de Ormuz, dois navios infratores", afirmou o comando militar iraniano no comunicado, citando que as embarcações não teriam autorização prévia para percorrer a rota, teriam cometido violações repetidas a manipulado sistemas de navegação que colocariam em risco a segurança marítima. "Os dois navios infratores foram apreendidos pelas forças navais da Guarda Revolucionária Islâmica e conduzidos à costa iraniana".
O primeiro caso, reportado pelo Centro de Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO, na sigla em inglês), envolveu a embarcação Epaminondas, de propriedade de uma empresa grega, há 15 milhas náuticas (cerca de 28 km) da costa de Omã. Em entrevista à rede britânica BBC, o ministro das Relações Exteriores da Grécia, Giorgos Gerapetritis, confirmou o contato hostil e danos extensos à embarcação, mas disse não ter informações sobre uma interceptação e condução a águas territoriais iranianas.
— Posso confirmar que houve um ataque contra o navio cargueiro grego, mas não posso confirmar que ele foi apreendido pelos iranianos — disse Gerapetritis.
O segundo incidente foi registrado com o navio cargueiro Euphoria, de bandeira panamenha, mas de propriedade dos Emirados Árabes Unidos, atacado a oito milhas náuticas (cerca de 15 km) do litoral iraniano, segundo a UKMTO e a companhia Vanguard. Dados da Marine Traffic revisados pela BBC Verify apontam que a embarcação teria lançado âncora perto de um porto emirati. Não há relato de feridos ou avarias ao navio.
As forças iranianas confirmam a ação contra o MSC Francesca, também de bandeira do Panamá, em posição próxima à costa do país. Não houve registro imediato das avarias sofridas pela embarcação, mas fontes iranianas disseram que o navio foi conduzido para águas territoriais. A agência de notícias semioficial Tasnim noticiou nesta quarta-feira que os navios foram alvos de uma operação de fiscalização.
Os incidentes acontecem um dia após Trump estender o cessar-fogo temporário com o Irã por tempo indefinido, horas antes do fim do prazo final para negociações com a República Islâmica — alegando que os iranianos precisariam de prazo extra para apresentar "uma proposta unificada" para a guerra, citando as fraturas dentro do regime. Em uma publicação nas redes sociais, o presidente disse que o bloqueio a portos iranianos seria mantido, citando uma frente de pressão econômica.
"O Irã está colapsando financeiramente! Eles querem abrir imediatamente o Estreito de Ormuz", publicou Trump em sua rede Truth Social.
Autoridades iranianas adotaram um tom beligerante contra a manutenção do bloqueio. O presidente do Parlamento do Irã e principal negociador do país nas tratativas com mediação do Paquistão, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou nesta quarta-feira que um cessar-fogo completo só teria sentido se "não for violado pelo cerco marítimo e pelo sequestro da economia mundial" e uma interrupção de todos os fronts de guerra.
"A reabertura do Estreito de Ormuz não é possível com uma violação flagrante do cessar-fogo", escreveu Ghalibaf em uma publicação no X. "Não alcançaram seus objetivos com a agressão militar, nem o alcançarão com intimidação. O único caminho é aceitar os direitos da nação iraniana".
Um importante assessor do parlamentar, Mahdi Mohammadi, já havia dito antes que o bloqueio naval "não é diferente de um bombardeio", acrescentando que deveria ser "respondida com uma ação militar" e que o Irã deveria "tomar a iniciativa" diante de uma renovação do cessar-fogo por parte de Trump, que considerou não ter "nenhum significado".
Trump afirmou ao jornal americano New York Post que uma segunda rodada de negociações de paz com o Irã poderia começar na sexta-feira, após informações de autoridades paquistanesas de que as conversas poderiam ocorrer dentro das próximas "36 a 72 horas".
A hostilidade em Ormuz provocou uma crise no mercado global de petróleo, com o preço do barril ultrapassando o valor de US$ 100 em meio ao conflito. Apesar de ter registrado queda desde o ápice das tensões, a tendência nesta quarta-feira era de alta, sendo negociado a US$ 99,60 (Brent) e US$ 90,68 (West Texas Intermediate).
França e Reino Unido anunciaram um plano internacional para reabrir Ormuz. Uma conferência será realizada nesta quarta-feira com planejadores militares de mais de 30 países, segundo os dois países, que não tomaram parte na ofensiva de seu principal aliado na Otan, os EUA.
"As sessões darão continuidade aos planos militares para a reabertura do Estreito, assim que as condições permitirem, após um acordo de cessar-fogo sustentável", indicou um comunicado de ambas as diplomacias.
Uma cúpula anterior reuniu representantes de 51 países em Paris na semana passada, na qual os líderes francês e britânico defenderam a reabertura "incondicional, irrestrita e imediata" do estreito e concordaram em estabelecer uma missão defensiva multinacional para escoltar navios mercantes.
O Irã rejeita iniciativas que alterem o status quo de seu controle territorial sobre as águas territoriais em Ormuz. Também é hostil a qualquer intervenção estrangeira ou colaboração de atores locais com rivais. Teerã ameaçou destruir a produção de petróleo dos países do Golfo "se a sua geografia e instalações forem usadas a serviço de inimigos para atacar a nação iraniana". (Com AFP e NYT)
VEJA TAMBÉM

























