Decreto de Castro foi feito sob medida para credenciar Master no Credcesta
09/06/2026

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Estudo de colegiado da Casa aponta que crédito consignado foi porta de entrada para banco de Vorcaro no RJ dois anos antes dos aportes bilionários do Rioprevidência e Cedae
Um decreto assinado pelo então governador Cláudio Castro (PL) em maio de 2021 foi feito sob medida para atender o Banco Master e credenciar a instituição para expandir a oferta do Credcesta, braço de crédito consignado, aos servidores públicos fluminenses. A conclusão é de um relatório elaborado pela Comissão de Servidores Públicos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) ao qual a equipe da coluna teve acesso.
O estudo, elaborado pelo presidente do colegiado, o deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), aponta que o mercado de consignados foi a porta de entrada para o Master no Rio de Janeiro e teve papel crucial na “engrenagem da fraude” que levou, dois anos depois, aos aportes bilionários do Rioprevidência e da Cedae em letras financeiras e fundos do banco de Vorcaro.
Em novembro passado, quando o Master foi liquidado, sua carteira de consignado no Rio era de R$ 5,5 bilhões em 156 mil contratos – 15,4% do mercado no estado, atrás apenas do Bradesco.
Na prática, o roteiro seguido no Rio é muito similar ao que se passou na Bahia, onde o modelo de negócios do Master com o Credcesta se consolidou durante o governo do petista Rui Costa. Lá também houve ampliação da margem consignável e decretos estaduais que, na prática, garantiam ao Credcesta monopólio sobre o serviço. Posteriormente, o serviço do cartão foi expandido para diversos estados.
Decreto sob medida
Segundo o levantamento, a primeira medida assinada por Castro que beneficiou o Master foi um decreto de 27 de maio de 2021 que alterou a regulamentação dos consignados no Rio para permitir que o governo autorizasse o credenciamento de entidades financeiras não inscritas no Banco Central (BC) e administradoras de cartão de crédito.
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Apenas cinco dias depois, em 1º de junho, a Casa Civil de Cláudio Castro autorizou a operadora PKL One, em nome do Banco Master, a oferecer o Credcesta a servidores e pensionistas do estado. De acordo com o colegiado, o mesmo termo de credenciamento ainda deu exclusividade à empresa para o fornecimento do cartão de benefícios.
A empresa PKL é ligada ao então sócio de Vorcaro, Augusto Lima, e operava o cartão de crédito consignado nos estados em que o serviço era oferecido pelo Master. Após a liquidação do banco, o Pleno, que pertence a Lima, assumiu as carteiras do Credcesta.
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A PKL, porém, nunca foi credenciada como instituição autorizada a funcionar pelo BC, conforme certidão emitida no site do órgão regulador pela equipe da coluna na última quarta-feira (3). A previsão inserida no decreto de Cláudio Castro, portanto, foi providencial para que a operadora fosse credenciada para operar o Credcesta no Rio.
Mas não foi só isso.
A medida assinada por Castro também ampliou a fatia dos vencimentos dos servidores que poderia ser comprometidas ao criar um limite próprio de 20% para o cartão de benefícios do Credcesta, além de autorizar que ele também passasse a ser usado para o custeio de bens e serviços no comércio tradicional.
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O texto ainda estipulou que esses 20% poderiam ser acrescidos ao teto de 35% já previsto em lei para o pagamento dos empréstimos tradicionais e despesas com cartões de crédito consignados.
Na prática, isso expandiu ainda mais a fatia de mercado a ser explorada pelo Master e permitiu que os servidores comprometessem até 55% da renda com descontos na fonte. O relatório da Alerj destaca que esses dispositivos ampliaram “significativamente o potencial de endividamento”.
Meses depois, em novembro de 2021, outro decreto estadual expandiu o limite legal do consignado regular de 35% para 40% e manteve a faixa dos 20% do cartão Credcesta à parte, aumentando ainda mais a possibilidade de comprometimento da renda.
O decreto de Castro ainda liberou a contratação dos serviços de consignado fossem contratados por telefone e até WhatsApp – o que, segundo o trabalho liderado por Serafini, abriu margem para abordagens informais a servidores e pensionistas sem a clareza necessária quanto às cláusulas e as condições oferecidas pelo Master.
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No processo, ainda de acordo com a Alerj, a PKL One e o Master solicitaram e tiveram o acesso franqueado à folha de pagamento do estado e os dados de servidores e aposentados.
Embora os decretos estaduais sejam públicos, o estudo da comissão de Servidores Públicos afirma que os documentos e registros do governo sobre a tramitação do credenciamento da PKL One e a entrada do Credcesta são mantidos sob sigilo e não foram fornecidos à Assembleia. Não foi garantido o acesso nem mesmo aos termos de compromisso que eram entregues a quem aderisse ao programa.
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O relatório sustenta que a carteira do Credcesta no estado foi determinante para dar ao Master e a Vorcaro liquidez e lastro para a emissão dos CDBs do banco, além de garantir uma fonte de capitalização para a carteira de ativos oferecidas a diversas outras instituições financeiras e, futuramente, viabilizar a aquisição de títulos podres pelo Rioprevidência.
“O crédito predatório alimentou a engrenagem da fraude e os servidores do Rio de Janeiro foram submetidos a um duplo prejuízo, individualmente em contratos abusivos e coletivamente com o vilipêndio do patrimônio do seu fundo de pensão”, afirma o documento.
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O relatório cita também dados do painel de grandes litigantes computado pelo Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) que colocam o Master como responsável por quase um terço (27,4%) dos processos por superendividamento no estado. A taxa de juros por ano, segundo a comissão da Alerj, chegava a 100%.
Questionada pela equipe da coluna sobre os indícios de favorecimento do Banco Master pelo governo Castro apontados no relatório da Alerj, a defesa de Daniel Vorcaro informou que não se manifestará.
Por meio de assessoria de imprensa, a defesa de Cláudio Castro negou que os decretos relacionados ao Credcesta tenham sido feito sob medida para o Master e alegou que todas as ações do então governador do Rio "seguiram os procedimentos legais e administrativos aplicáveis, sem qualquer interferência indevida" da parte dele (leia a íntegra da nota ao final da reportagem.
Blindagem
Responsável pelo relatório, Serafini é autor de um requerimento pela abertura de uma CPI do Master para apurar as responsabilidades pela expansão irregular do Credcesta no estado que já atingiu o número necessário de assinaturas para sua instalação.
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Mas a Casa é controlada pela bancada bolsonarista, e o presidente e pré-candidato ao governo, Douglas Ruas (PL), tem barrado de forma sistemática a instalação da CPI, como forma de blindar Castro e o PL de maiores desgastes no berço eleitoral do presidenciável Flávio Bolsonaro.
Como publicamos no blog, a primeira proposta de delação de Vorcaro rejeitada pela Polícia Federal (PF) omitia o papel de Castro nos investimentos do Rioprevidência, mas destacava seu envolvimento na articulação da expansão do Credcesta no estado. O ex-governador foi alvo de operação da PF no último dia 26 no âmbito do inquérito, que já demonstrou a correlação cronológica entre o pagamento de despesas de luxo por Vorcaro à liberação de investimentos do governo no Master.
Nos bastidores, Castro costumava responder a quem o questionava sobre os investimentos arriscados do Rioprevidência no Master que, se houvesse algum problema, a carteira de consignados do Credcesta cobriria eventuais prejuízos.
Leia abaixo a íntegra da nota da defesa de Cláudio Castro:
A defesa do ex-governador Cláudio Castro esclarece que não houve favorecimento, direcionamento ou criação de regras “sob medida” para beneficiar o Banco Master ou empresas a ele relacionadas.
O Banco Master não ingressou como nova instituição no sistema de consignações do Estado. A instituição sucedeu o Banco Máxima S/A, já cadastrado como consignatário desde 2020 no SIGRH. Com a alteração de razão social para Banco Master S/A, em 18/06/2021, sem mudança de CNPJ, o procedimento adotado foi de recadastramento, e não de novo credenciamento.
O recadastramento do Banco Master e o cadastramento da PKL One seguiram as exigências da Resolução SECCG nº 19/2019, com apresentação de certidões, documentação societária, comprovação de regularidade perante o Banco Central, representação legal e demais requisitos normativos aplicáveis.
A modalidade de cartão benefício não foi criada exclusivamente para o Rio de Janeiro nem para uma instituição específica. Trata-se de instrumento adotado por diversos entes federativos, incluindo União, Prefeitura do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Mato Grosso. Também não houve exclusividade operacional, já que o credenciamento era aberto às empresas que cumprissem os requisitos legais e regulamentares.
Questionamentos semelhantes já foram analisados em processos no Tribunal de Contas do Estado, nos quais o Estado apresentou documentos e esclarecimentos que demonstram a regularidade dos atos administrativos praticados.
Além disso, foi durante a gestão Cláudio Castro que o Estado adotou medidas de controle e cautela em relação às operações da PKL One e do Banco Master. Entre elas, estão o ajuizamento de ação contra as empresas e a suspensão preventiva de novas averbações do produto Credcesta até a conclusão das análises administrativas e judiciais em curso.
Também foi durante a gestão Cláudio Castro que houve atuação judicial para proteger os investimentos do Rioprevidência relacionados ao Banco Master. O bloqueio obtido assegura a retenção de valores suficientes para garantir o ressarcimento ao fundo, reforçando a atuação do Estado na defesa dos servidores, aposentados e pensionistas.
A defesa reforça que todos os atos seguiram os procedimentos legais e administrativos aplicáveis, sem qualquer interferência indevida do ex-governador.
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