Adultização: por que o uso precoce de maquiagem e skincare é preocupante

27/01/2026

Fonte: revistamarieclaire.globo.com Por Luiza Vezzá, redação Marie Claire — São Paulo (SP)

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Médicos alertam para os danos à saúde mental e da pele. Veja os conselhos de dermatologistas

Em uma sociedade cada vez mais digital, tem sido bastante comum encontrar crianças, geralmente meninas, consumindo e criando conteúdos sobre maquiagem ou cuidados com a pele. O que em um primeiro momento pode parecer “bonitinho” e inofensivo, na verdade se revela como um fenômeno nada saudável: essa exposição e incentivo a comportamentos e experiências do mundo adulto levam a um amadurecimento precoce que pode causar danos físicos e psicológicos. Você já deve ter ouvido o termo adultização. É disso que se trata.

A vontade de usar esses produtos pode vir da observação dentro de casa, mas, atualmente, boa parte desse desejo nasce por causa da internet. “Sou dermatologista, mas antes disso sou mãe de duas meninas, uma de oito e outra de dezesseis anos. Sei que o incentivo não nasce da vaidade, e sim do desejo de fazer parte. O TikTok expõe crianças a rotinas adultas, muito estéticas, que associam o cuidado à aceitação”, conta a médica Elizabeth Senra.

A febre ensina desde cedo que o rosto precisa ser corrigido, o que acaba tendo grande impacto na autoestima e autoimagem. Além disso, o processo provoca o pulo de etapas cruciais da infância.

Estudos sobre sexualização precoce mostram que a exposição intensa a padrões de beleza adultos pode antecipar comportamentos e preocupações, especialmente em meninas. “Não é ‘maturidade emocional', mas sim adultização da aparência e dos interesses, o que pode gerar conflito com a fase de desenvolvimento em que elas realmente estão”, comenta a dermatologista Glauce Eiko.

Por outro lado, a proibição absoluta também pode ser prejudicial, gerando muitos questionamentos e dúvidas na cabeça dos pequenos. A comunicação entre pais e filhos é sempre muito importante, mesmo em questões aparentemente inofensivas. Enfatizar que a beleza natural deve ser valorizada e que produtos não são necessários para a autoestima é crucial.

 

“O uso lúdico e supervisionado é diferente de adotar uma rotina intensa, precoce e por pressão estética. Isso merece atenção e, muitas vezes, freio”, comenta Eiko.

 

 

Maquiagem na infância: o que pode e o que não pode?

 

Sim, no mercado já existem maquiagens desenvolvidas especialmente para peles infantis. Geralmente são formuladas para serem seguras, com pigmentos mais suaves, menos fragrância e pensadas para serem removidas com água, o que reduz riscos, mas não os elimina por completo.

 

Mesmo que um item seja vendido como recomendado para crianças, é importante ler os rótulos. “Há relatos de produtos ‘infantis’ com metais pesados ou alta fragrância quando a marca não segue um rigor técnico”, lembra Eiko.

Não existe uma idade pré-definida para determinar o início do uso, mas, segundo a dermatologista, a maquiagem pode ser apropriada a partir dos 12 anos, desde que com produtos adequados e fazendo a criança entender a importância de removê-los bem e nunca, nunca, dormir maquiada. Aqui, cabe aos pais fazer a supervisão e cobrar a remoção. O uso frequente e diário deve ser desencorajado antes da adolescência.

Quanto mais precoce a exposição, maiores são as chances de a pele ficar sensibilizada, e o risco para reações alérgicas de contato, dermatite perioral e acne cosmética, aumenta. Quando aplicada perto dos olhos, pode causar, inclusive, blefarite e conjuntivite.

E não são apenas os riscos físicos que preocupam. O excesso de uso pode levar à dependência desses produtos em nome da manutenção da autoestima. A longo prazo, pode contribuir para o desenvolvimento de distorção de imagem.

 

O que entender sobre skincare na infância?

 

Apesar de parecer menos prejudicial, a adoção precoce de uma rotina de skincare pode ter os mesmos efeitos psíquicos que o uso de maquiagem. E produtos formulados com ativos potentes oferecem risco significativo para a saúde da pele.

 

“Esfoliantes físicos, ácidos fortes, álcool, retinóides como o ácido retinóico, seus derivados, e clareadores não são recomendados”, diz Eiko.

 

A curto prazo, podem provocar vermelhidão, ardência, coceira, ressecamento, descamação, acne cosmética e manchas pós‑inflamatórias. A longo prazo, a pele pode sofrer com dermatite de contato alérgica e sensibilidade crônica, tornando-se altamente intolerante. Para as crianças com condiç pré‑existentes, como dermatite atópica ou rosácea, pode ser que a pele necessite de tratamentos médicos que, sem o uso, poderiam ser evitados.

Além disso, existe o risco de instituir padrões problemáticos, como a ideia de que a pele saudável precisa de cuidados, ou a pressão para conquistar a “pele perfeita” baseada em filtros e edições, aumentando a insatisfação corporal. “Isso pode favorecer comportamentos compulsivos, como espremer cravos e espinhas, olhar no espelho por muito tempo, trocar de produto o tempo todo, etc”, acrescenta Eiko.

Por outro lado, uma rotina simples, acompanhada de um discurso de autocuidado saudável, pode ser positiva. Segundo as médicas, a higiene suave e a fotoproteção, por exemplo, devem ser realizadas desde a infância — claro, com produtos adequados e orientação do pediatra ou dermatologista.

A partir da puberdade, pode-se estudar adoção de uma rotina um pouco mais estruturada, com gel de limpeza, hidratante e protetor solar de acordo com a necessidade da pele. “Qualquer coisa além disso, como séruns, ácidos etc. deve ser avaliada individualmente com dermatologista”, finaliza Eiko.