Xuxa: 'Quero ainda usar minha voz para bons propósitos na vida'

08/07/2026

Fonte: revistaquem.globo.com Por Camila Borowsky e Marina Bonini

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Apresentadora se prepara para a turnê 'O Último Voo da Nave' em celebração aos 40 anos de 'Xou da Xuxa' e relembra momentos marcantes de sua trajetória profissional e pessoal, adiantando que ainda tem muitos sonhos a realizar

Quando soube que acompanharíamos o ensaio da capa da Xuxa para a Quem, no Estúdio X, que fica na própria residência da Rainha dos Baixinhos, confesso que senti um misto de ansiedade e excitação que eu já havia aprendido a controlar nos meus mais de 20 anos de carreira como jornalista, muitos deles dedicados ao entretenimento, após entrevistar inúmeras pessoas que admirava, inclusive a própria apresentadora. Mas, naquela terça-feira, especificamente, assumi um lado fã. Reuni todos os seus discos, de uma coleção mais recente de CDs, que ainda guardo com muito cuidado, e parti de São Paulo para o Rio de Janeiro, ainda sem acreditar no que estaria por vir.

Em meio às paredes decoradas com algumas fotos e objetos da sua trajetória de mais de 40 anos de carreira, me dei conta de que estava mesmo na casa da Xuxa quando toquei o clássico par de botas brancas dos anos 80 (com direito a X no salto), garimpado do seu privado acervo, que comporia um dos dez figurinos usados na sessão de fotos. A caminho do estúdio, a memória que me acompanhava era a da menina que fui, como se fosse encontrá-la de chuquinhas e microfone de pompons, assim como ela abria o Xou da Xuxa, nas manhãs de segunda a sábado, de 1986 a 1992. Mas a surpresa foi outra. Me deparei com Maria da Graça Xuxa Meneghel, recém-acordada, em um roupão branco, com os pés descalços e o rosto ainda sem maquiagem, muito calma, cumprimentando com um beijo um a um da equipe presente naquela tarde chuvosa no Rio.

Nos intervalos dos cliques, ela aquecia em seus braços a inseparável yorkshire Doralice, nos mostrava vídeos em seu celular e trocava ideia com a gente sobre assuntos aleatórios, como se fôssemos velhos conhecidos. Em instantes, eu já não a via mais como aquela estrela meio mítica e intocável do meu imaginário. A pessoa presente ali era uma mulher simples e real, assim como eu (dadas as devidas proporções, claro). Nesta hora, senti que não cabia mais mostrar os discos para ela, contar o quanto a admirava ou incomodá-la com as minhas memórias de infância. Eu queria apenas observá-la e conhecê-la verdadeiramente.

Em uma entrevista sincera para a repórter Marina Bonini, que também cresceu sob seu reinado na TV, Xuxa assumiu estar sem dormir por conta da expectativa para estrear no dia 25 de julho a turnê comemorativa O Último Voo da Nave, relembrou os desafios que encontrou ao longo da carreira para se ver como a mulher bem-sucedida, talentosa e poderosa que era, detalhou a transformação radical que o nascimento da sua filha, Sasha Meneghel, trouxe para sua vida, celebrou a liberdade sexual que encontrou nos braços de Junno Andrade aos 49 anos, falou sobre etarismo aos 63 anos e sobre como se imagina em duas décadas.

No dia seguinte ao ensaio, já de volta a São Paulo, ouvi um compilado de músicas dos primeiros álbuns da Xuxa enquanto estava na academia e ali a imagem da Rainha dos Baixinhos voltou. Lembrei da minha versão criança, que, um dia, entrou na caixa da boneca Xuxona e fez um ensaio para a mãe como se fosse a sua maior inspiração e que, de tanto ouvir que "sonhos sempre vêm pra quem sonhar", também acreditou que um dia sairia do interior do Rio Grande do Sul e trabalharia com o que mais ama. E não é que a Xuxa estava certa?

 

Um dos eventos mais aguardados do ano está se aproximando: O Último Voo da Nave. Era algo que você desejava há muitos anos ou na sua cabeça já havia encerrado de vez esse ciclo?
Não! Eu acho que esse ciclo também nunca encerrou na minha cabeça e nem mesmo depois do último voo da nave vai se encerrar. A nave, sim, vai se aposentar para que a imagem que as pessoas têm de mim, com aquela cara e com aquela chuquinha, se encerre. Isso eu já gostaria que estivesse encerrado há muito tempo. Há aproximadamente três anos que eu tenho pensado firmemente em aposentar a minha nave. Que bom que está acontecendo tudo do jeito que eu imaginava para ela. Vamos encerrar o ciclo dela muito bem. Mas encerrar minhas apresentações e minhas aparições nunca pensei, não. Ainda não estou pensando na aposentadoria.

 

"Há aproximadamente três anos que eu tenho pensado firmemente em aposentar a minha nave"

 

Você está ansiosa com essa turnê?
Estou ansiosa, nervosa e não tenho conseguido dormir, mas tudo vai passar.

Você sempre se cuidou muito, com atividades físicas e uma alimentação vegana e saudável, mas vimos que está mais magra. Mudou algo na sua preparação física ou alimentação para essa turnê?
Mudou o fato de eu fazer mais ginástica agora. Antes eu fazia ginástica três vezes por semana; agora eu estou fazendo diariamente. Só tenho livre domingo. Tenho feito bastante coisa para não me sentir tão cansada na hora. Mas não mudei nada na minha alimentação.

Muitas pessoas têm a expectativa de voltar no tempo do Xou da Xuxa por meio desta turnê. Veremos coreografias, alguns figurinos ou algo do cenário que realmente seja daquela época?
Sim, vai ter coreografia. Todos os figurinos são novos, mas com um cheirinho dos anos 80/90. O cenário agora vai ser todo virtual. A tecnologia de hoje em dia é uma coisa que eu vou utilizar bastante. Vamos usar a inteligência artificial e todas as possibilidades que a gente tem. Inclusive a nave, pela primeira vez, vai ser em 360 graus. Acho isso incrível! Só hoje mesmo para poder fazer isso.

Os shows têm um clima muito futurístico e que remetem ao extraterrestre, ao vindo de outro planeta... Você acredita na existência de vida extraterrestre e já teve alguma experiência neste sentido?
Óbvio. Nossa, quem não acredita? Não dá para imaginar que nós somos os únicos nesse universo tão enorme. Nunca tive experiência, mas, quando eu tiver, com certeza todo mundo vai saber. Quando eu vi duende, eu contei. Imagina se eu não vou falar quando eu vir um disco voador ou um ET. Ah, vou.

"Eu trabalhava para poder dar muitos presentes para minha mãe. Se eu pudesse, eu daria presentes de manhã, à tarde e à noite para ela. Esse era o meu sonho: encher a minha mãe de mimos"

O primeiro voo da nave foi em 1986. Como era a Xuxa que entrou naquela nave pela primeira vez?
Era uma menina de 23 anos, com muitos sonhos e com muita vontade de realizar os sonhos da minha mãe. Eu trabalhava para poder dar muitos presentes para minha mãe (Alda Meneghel, que partiu em 2018, aos 81 anos). Se eu pudesse, eu daria presentes de manhã, à tarde e à noite para ela. Esse era o meu sonho: encher a minha mãe de mimos.

O que você mantém daquela menina e o que fica feliz por ter deixado para trás?
Ela continua sendo uma sonhadora, mas com a certeza de que hoje eu sou uma vitoriosa. E o que eu deixaria para trás? Eu gostaria de ter acreditado menos nas pessoas.

Em 1987, o jornal francês Libération te colocou na lista das dez mulheres de maior destaque do planeta, ao lado de pessoas como a ex-primeira-ministra do Reino Unido Margaret Thatcher. Como foi para aquela menina de Santa Rosa, interior do Rio Grande do Sul, entender que tinha tanto poder, força e sucesso?
Naquele momento, não caiu muito minha ficha sobre isso, sabe? Eu não prestei muita atenção na grandeza que era ser reconhecida mundialmente numa época em que não tinha internet. Naquela época, para eles conhecerem meu trabalho, eles tiveram que realmente ver, estudar e saber o quanto eu estava conquistando. Não era comum as pessoas daquela época serem vistas no mundo, né? O nosso alcance era Brasil mesmo. As pessoas que faziam sucesso em Fortaleza e na Bahia, por exemplo, demoravam para fazer sucesso no Rio. Imagina uma pessoa que tinha saído de Santa Rosa e sido criada no subúrbio do Rio de Janeiro chegar a conquistar algo fora do seu mundinho? Então, para mim, não caiu muito a ficha, não.

Nunca precisou que sua mãe ou pessoas próximas te lembrassem sua essência?
Não precisei! Na verdade, ela tinha que me lembrar que eu era capaz de conseguir as coisas. O tempo todo minha mãe dizia que eu era uma pessoa diferente e especial. Às vezes, eu falava: "Não, não vou conseguir". Ela dizia: "Com certeza você vai conseguir. Se você não conseguir, ninguém vai conseguir". Para minha mãe, eu era o máximo.

 

"Ouvi muita piada sobre o relacionamento com Pelé. As pessoas não acreditavam que eu gostava dele. Ele mesmo fazia piada. Era uma coisa normal e eu me sentia mal, mas não podia falar"

 

E era, mas tinha todo esse sucesso, em meio à sociedade brasileira, que não admitia que uma mulher pudesse ser bem-sucedida por seu próprio mérito e trabalho. Quais foram os maiores absurdos que você ouviu de quem tentava tirar esse mérito?
As pessoas faziam muitas piadas, mas era quase normal nos anos 80. A gente ouvia que toda mulher loira era burra. Ouvi muita piada sobre o meu relacionamento com Pelé (o namoro começou em 1980 e durou cerca de seis anos). As pessoas não acreditavam que eu gostava dele. Ele mesmo fazia piada. Era uma coisa normal e eu me sentia mal, mas não podia falar. Muitas coisas eu ouvia e não respondia. Fico muito chateada por mim. Eu tive muitas oportunidades de me defender. Ouvia as pessoas falando e não dizia nada. Eu acho que, antes delas tirarem meu mérito, eu mesma tirava, sabe? Eu mesma me colocava num lugar que não era o certo.

Acha que a invenção de que você teria feito pacto com o diabo é um exemplo disso?
Não, isso daí eu acho que não. Eu, particularmente, não imagino de onde tenha vindo isso. O meu líder é Deus, que eu carinhosamente chamo de "o cara lá de cima". Vou continuar chamando meu Deus desse jeito, mesmo as pessoas achando que está errado eu falar desta forma. Mas pensa, com 20 anos de idade, eu só falava gíria; chamava todo mundo de "cara". Inclusive, meu apelido era carinha, de tanto que eu falava "cara". Eu chamava Deus de "o cara lá de cima" porque eu conversava com ele diariamente. Então, eu não acredito que tenha outra mão ou outra força maior que tenha me colocado nesse lugar além de Deus. E torno a dizer: "As pessoas que acreditam em outra coisa estão dando muito valor ao cara lá de baixo e não ao cara lá de cima".

Você foi a primeira pessoa que eu (nascida em 82) vi gerando inclusão de grupos que antes eram invisíveis na sociedade. Como foi a ideia e a decisão de divulgar a linguagem de Libras, levar crianças com síndrome de Down para dançar com você no centro do programa, etc.?
Eu tenho um amigo chamado Gilmar, que carinhosamente eu chamo até hoje de Mudinho. Ele que me ensinou a falar em Libras. Conheci os amigos dele também e passava as minhas férias tentando falar Libras. Até hoje eu não sei falar legal Libras. Faço o abecedário, mas falar mesmo é bem difícil. Também tive um amigo com uma deficiência física, o Max. Ele vivia na nossa casa e passava férias com a gente. Eu nunca olhei para ele de forma diferente. Ele mesmo fazia a questão de dizer que não podia olhar para ele como um 'tadinho'. Então, quando eu comecei a trabalhar para criança, eu queria trabalhar para todas as crianças. Achei muito bacana que eu comecei a ver que essas pessoas, que eram invisíveis, tinham nomes e sonhos.

Você precisou bater o pé para conseguir dar destaque a essas causas ou foram bem aceitas desde o início, quando sugeridas?
Essa coisa de inclusão era um termo que nem existia naquela época, quando eu comecei a trazer essas pessoas que estavam escondidas ao olhar de todo mundo, principalmente na televisão. As pessoas pagavam gente de agência para ir aos programas. Naqueles com plateia, ficavam sempre as pessoas mais bonitas nas primeiras fileiras, sabe? E eu não queria isso. Eu queria trabalhar para todas as crianças. Mas não foi uma coisa que eu falei: "Isso eu quero que tenha". Eu achava totalmente natural ter cadeirantes, ter crianças com síndrome de Down, cegas e mudas, e chamava essas pessoas para perto de mim. Fazia questão de mostrar que eu trabalhava para todas, sem distinção nenhuma. Isso chocou algumas pessoas.

Em que sentido?
Eu recebi fax lá na Argentina (Xuxa comandou El show de Xuxa de 1991 a 1993 na TV Argentina) porque eles não gostavam de ver as crianças com algum tipo de deficiência cantando ao meu lado. Diziam que era hora do almoço e não gostavam disso. Eu me lembro de ter respondido na televisão que eu senti muita vergonha de ter lido isso e de fazer parte do mundo em que as pessoas realmente não olham para as outras com carinho e com respeito. Eu me lembro de que, quando eu quis cantar "eu sou diferente de você, você é diferente de mim", da música Você Vai Gostar de Mim, todo mundo dizia: "Não, você não pode cantar isso porque somos todos iguais". Falei: "Não, nós não somos iguais. E é bacana a gente não ser igual. É legal e normal ser diferente". Então, tem coisas que realmente eu tive que meio que brigar, porque as pessoas não aceitavam e queriam colocar todo mundo numa caixinha. Eu quis abrir as caixinhas e dar espaço para tudo e para todos, mas não fui preparada para isso e nem foi planejado; foi apenas de coração.

Do que você se orgulha de ter conseguido transmitir e ensinar para essa geração que foi criada vendo os seus programas?
É muito difícil generalizar e dizer: "Ah, eu gostei de ter transmitido isso". Acho que as minhas músicas transmitiram muita coisa bacana. Como foram quatro décadas, quatro gerações, é muito difícil te responder isso. Mas eu acredito que uma das coisas mais importantes que eu devo ter feito, pelo menos, eu vejo e ouço muita gente falando, foi o de fazer as pessoas acreditarem nos seus sonhos. Eu vim do interior e fui criada no subúrbio do Rio, mas consegui conquistar tudo o que eu conquistei porque eu nunca desisti do meu sonho, que era muito simples: dar o melhor para a minha mãe. Corri atrás disso e não desisti de jeito nenhum. Depois, outros sonhos vieram. Hoje eu tenho um sonho de ver minha filha muito feliz e de ver os meus netos... Queria muito deixar mais do que eu já consegui deixar para as pessoas.

"Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer antes de ir embora desse mundo, sabe? Então, acho que a coisa mais bonita talvez ainda esteja para acontecer"

O que deseja inspirar daqui adiante para o seu público?
Hoje sou vegana, levanto a bandeira LGBT+, quero dar voz às crianças que foram ou são abusadas como eu fui... Tem tanta coisa que eu ainda quero fazer antes de ir embora desse mundo, sabe? Então, acho que a coisa mais bonita talvez ainda esteja para acontecer. As coisas bonitas que aconteceram, eu já vejo fruto, fico muito feliz e muito lisonjeada por isso. Tem tanta coisa para eu ainda passar, já que eles me dão voz e tenho credibilidade. Fico tão feliz quando eu vejo alguém tendo respeito pela minha história, pelo que eu vivi, vivo e vou viver. Quero ainda usar essa voz para bons propósitos na vida. Por incrível que possa parecer para as pessoas, tenho muita dívida. Tudo que eu tenho, eu realmente devo a Deus ou ao "cara lá de cima", e ao meu público, que nasceu e cresceu comigo e tem muito carinho e respeito por mim.

Por muitos anos você esteve muito protegida; depois você mesma foi tomando as rédeas da sua carreira, vida e saindo dessa redoma de vidro que te colocavam. Como foi ver o mundo, as pessoas e até você mesma por suas próprias escolhas?
Isso aconteceu depois que a Sasha nasceu. Deu uma virada de chave. Eu não queria que ela crescesse pensando que a mãe dela era aquela pessoa que era só mandada por alguém. Tipo, "senta aí", "levanta", "agora fala assim", "agora veste a roupa assim", "agora come isso", "agora não fala isso". Eu realmente quis ser uma pessoa melhor e quis andar com minhas próprias pernas, coisa que eu já devia ter feito há muito tempo... Sempre quando eu começava a trabalhar com as pessoas, elas me tratavam muito bem. Depois elas iam tomando conta. Elas não são de cara aqueles monstros que viraram. Elas vão virando aos poucos.

Algo recorrente, então...
Acho que é um problema meu... Eu meio que transformo essas pessoas nesses monstros e elas tomam conta da minha vida. Só que chegou um momento, quando eu resolvi ser mãe, em que eu falei: "Não quero mais isso para mim". E aí, eu passei a me olhar com mais carinho. Mas o que eu queria, na realidade, era que a minha filha tivesse orgulho de mim. Do jeito em que eu estava vendo e fazendo, não tinha como nem eu ter orgulho de mim, quanto mais a minha filha.

"Eu queria que a minha filha tivesse orgulho de mim. Do jeito em que eu estava vendo e fazendo, não tinha como nem eu ter orgulho de mim, quanto mais a minha filha"

Em 2023, tivemos a oportunidade de conhecer sua trajetória por outros ângulos por meio do Xuxa, o Documentário. Ali você tocou em histórias doloridas, reencontrou pessoas que já não fazem mais parte da sua vida... Saiu, de alguma forma, diferente deste projeto como pessoa?
Eu fiquei um pouco assustada porque eu tinha meio que me esquecido de tudo que eu tinha vivido. Quando eu comecei a ver o documentário, vi as pessoas comentando, falando de tudo que eu tinha vivido... Comecei a pensar: "Nossa, realmente eu vivi tudo isso, né?". Eu meio que apaguei um pouco a minha história, sabe? Foi muito legal reviver a minha história. Quando eu tiver meus netos, vou querer mostrar para eles quem foi a avó deles. Eu queria guardar realmente aquilo, porque talvez, se eu contasse, eu não ia contar com tantos detalhes e com tanta beleza como foi feito pelo documentário.

Fez as pazes com pessoas ou situações que não estavam resolvidas?
Não. E nem quero fazer as pazes com nada, nem com ninguém. Para mim, está ótimo assim. Eu rezo todos os dias para Deus: "Afaste-me de todo mal. Amém". E ele tem feito isso para mim. Seria muita burrice eu voltar a ter certas situações de pessoas mal resolvidas perto de mim.

Dizem que o sucesso é solitário e o topo, ainda mais. Sua trajetória foi solitária?
Todo dia as crianças diziam: "Eu te amo". Elas eram muito ligadas a mim e me apertavam o tempo todo, mas eu voltava para casa com as mãos abanando, sem namorado, sem criança e apenas com meus bichos. Foi bastante solitário. Eu convivia com as pessoas que trabalhavam comigo, e elas acabaram virando minha família. A Maria, que era minha governanta, eu posso dizer com todas as letras que foi minha segunda mãe. Ela não foi uma pessoa que trabalhou para mim, mas, sim, minha segunda mãe. Eu tinha a certeza absoluta de que, se eu não tivesse dinheiro igual, ela ficaria do meu lado. Então, eu acabei descobrindo uma outra família no meu trabalho. Mas, mesmo com a Maria e todo mundo perto de mim, eu dizia que sentia falta de ter alguém para chamar de "amor", "de tesão", "de fofo", "de gostoso", de "meu namorado". Também queria, principalmente, ser chamada de "mãe". Isso foi uma coisa que demorou. Eu queria muito ser mãe porque eu sentia muita vontade de ter uma pessoinha que tivesse saído de dentro de mim e que tivesse perto de mim para o resto da vida. Isso, sim, eu sentia falta.

 

"Todo dia as crianças diziam: 'Eu te amo'. Elas eram muito ligadas a mim e me apertavam o tempo todo, mas eu voltava para casa com as mãos abanando, sem namorado, sem criança e apenas com meus bichos. Foi bastante solitário"

 

Falando de maternidade, a Sasha foi uma menina criada com muitos privilégios, mas nunca deixou de olhar para o outro que não estava na mesma bolha e que construiu sua própria trajetória profissional. Como você fez para criá-la de uma forma que ela não se limitasse a ser apenas uma herdeira?
Eu já falei anteriormente e repito: a Sasha veio pronta! Ela escolheu ser minha filha lá em cima e eu tenho certeza de que ela já veio sabendo de tudo que ela ia passar, inclusive de algumas coisas nada agradáveis e muitas coisas agradáveis. Ela já veio sabendo que ia ter muito carinho e respeito das pessoas, mas também muita cobrança. Ela é uma menina muito inteligente. Falo para ela que ela parece uma alma velha, que já viveu bastante. Sabe falar, pensa certinho, sabe o que quer... Desde muito pequena, quando eu queria botar certas roupas nela, ela já dizia: "Não". Então, ela já sabia o que ela queria até vestir naquela época. Nunca ninguém mandou nela. Ela sabe muito bem o que é, e eu acho que isso é uma coisa muito forte da personalidade dela. E essa coisa que as pessoas falam: "Ah, ela é herdeira, não precisava trabalhar". Graças a Deus, ela não vê a vida dela por esse lado, não ouve essas pessoas e está brilhantemente abrindo os caminhos para ela, escrevendo a história dela, e eu acho que ela tem muita coisa para fazer, viver e mostrar para as pessoas. A Sasha vai ser uma história à parte no livro da minha vida, porque ela é uma menina muito especial e o mundo ainda vai descobrir isso. Já descobriu um pouquinho, mas vai descobrir muito mais.