O feminismo de Grazi Massafera: 'Não é odiar homens, é você ter o direito de não ser violentada'

03/02/2026

Fonte: revistamarieclaire.globo.com Por Marília Kodic — de São Paulo (SP)

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Sem maquiagem moral nem discurso pronto, a atriz Grazi Massafera fala de caos, obsessão, sucesso e o esforço constante de encontrar propósito em um mundo cada vez mais regido pela lógica da produtividade

Entre uma distopia urbana, uma vilania sofisticada e um folhetim histórico, Grazi Massafera segue construindo algo raro em carreiras muito expostas: uma trajetória que não pede permissão nem explica demais. O currículo recente ajuda a entender esse movimento, que há muito não se organiza em torno de rótulos limitantes como ex-miss e ex-BBB. No ar como Arminda, antagonista de Três Graças (Globo), ela sustenta o desconforto de não tentar tornar a personagem palatável. “Eu não me relaciono em nada com a Arminda. Acho ela ridícula [risos]. Ela me cansa, suga a minha energia. Ela é cômica, mas na verdade é uma mulher muito triste, solitária”, diz, com uma franqueza pouco comum no meio artístico.

Neste mês, estreia também Dona Beja (HBO Max), papel que exigiu entrega física e emocional e marca outro momento de maturidade profissional. “O processo de fazer a Beja foi muito cansativo, mas é uma personagem de uma força feminina absoluta que me senti preparada para encarar neste momento”, conta. Já no cinema, ela se permite escolhas guiadas sobretudo pela qualidade da interlocução artística: acaba de gravar Corrida dos Bichos (Prime Video, estreia prevista para 2026), ambientado em um Rio de Janeiro distópico. “A personagem não é tão grande, mas eu não poderia perder a oportunidade de trabalhar com o Fernando Meirelles e o Rodrigo Santoro – e foi muito bom.” A seguir, a atriz nos guia por um percurso franco de temas que hoje costuram sua vida, do caos e do desequilíbrio à escuta rigorosa de si mesma.

Autoconsciência

 

“Quando quer agradar aos outros, você se perde de si mesma. Sempre soube disso, então quando via que estava indo por esse caminho eu redirecionava para dentro. Peraí, isso faz sentido para mim? Estou querendo agradar a quem? Sempre tento voltar para mim. O que eu quero com isso? Isso me traz mais consciência de atitude, de ação, de escolha, de direcionamento, de felicida de. Não me arrependo das coisas que fiz e eu sei que isso é uma dádiva. Estou inteira até quando erro.”

Caos

 

“Sempre procuro uma oportunidade em meio ao caos. Ele existe para te tirar do conforto. Vou ficar ali me afogando naquilo ou vou procurar motivos e benefícios? Acho o caos uma oportunidade de crescimento, de amadurecimento. Quando estou em um caos, primeiro mergulho nele e fico ‘Ó céus! Ó céus!’ Dramática. Sou canceriana. Mas depois eu falo: ‘Chega!’ Tenho uma conversa interna e me pergunto: o que você vai aprender dessa merda pela qual está passando [risos] ?”

Carnaval

 

“O Carnaval é a minha alegria. É uma das coisas mais lindas da cultura do nosso país. Ele traduz o que é o brasileiro em uma essência que explode em brilho, alegria, suor, choro de emoção. O Carnaval é realmente muito emocionante e eu tenho muito orgulho dessa cultura que transmitimos mundo afora. E as pessoas fazem disso um comércio e de alguma forma isso também retorna para as comunidades, o que acho incrível. Tenho muito respeito por essas pessoas. Fui rainha de bateria duas vezes e eu não tinha noção do que estava fazendo ali. Já fui convidada outras vezes, mas recusei justamente porque não tenho o tempo digno para poder dedicar a isso.”

 

Conselho

 

“Sei que eu sou uma mulher branca de olho claro e por isso eu saí na frente, mas se tem uma mensagem que eu quero deixar é que nada é impossível quando você tem foco, disciplina, desejo e vontade. Na minha vida tem muita sorte, mas tem também muito suor. ”

Disciplina

 

“Resolvi voltar para a novela, mas vou te falar, é exaustivo. Sei que não é fácil falar isso em um país tão desigual, de salários desiguais, de pessoas que trabalham demais. Mas, falando da minha realidade, é um trabalho físico e psicológico que precisa de corpo e saúde de atleta. São 13 horas por dia, então é um trabalho que exaure a tua criatividade. E eu que sou obsessiva não faço escala 6x1, faço 7x0. ”

 

Estética

 

“Não me vejo como uma mulher bonita. Apenas OK. Básica. E eu acho isso ótimo. Herdei uma genética boa do meu pai e da minha mãe, obrigada, e cuido da minha saúde. Mas não sou de fazer loucuras por estética. Tem gente que fala: ‘Ah, ela é assim porque usa produto, toma hormônio’. Não, querida, não tem nada. Se quiser, faço um exame de sangue e mando aí para a sua casa. Acho que tem muita gente que gosta de falar isso para justificar a falta de cuidado consigo mesmo. É lógico que eu tenho contato com bons produtos, porque hoje eu tenho uma conta bancária que me ajuda. Mas passo dois creminhos e olhe lá".

Estilo

 

“Gente, eu acho que eu não tenho estilo, não. Eu tenho estilo? Tenho síndrome de quando eu não podia ter as coisas, então gosto de ter uma boa bolsa, coisas assim. Mas acho que tenho um estilo mais básico. E, quando vou a algum evento, gosto daquela mulher Dolce & Gabbana, com aqueles vestidos florais, mais italianona. Acho que me veste bem. E me divirto quando faço fotos. Acesso o lugar da modelo que foi rejeitada e adoro. ”

 

Equilíbrio

 

“Gosto de cuidar da saúde, tenho uma dieta regulada e malho direitinho, mas eu também gosto de comer torresmo. Esses dias eu saí do Projac e passei no Balbino, um bar do Rio onde achei um negócio de torresmo que só tinha na minha cidade. Na hora em que botei na boca, parecia que tinha voltado pra lá. Memória afetiva. Então parei na porta, peguei o torresmo e vim comendo – cheguei até a sujar o volante do carro! Alguém vai dizer que eu faço isso? Não, mas eu fiz e vou continuar fazendo quando me der vontade. Quando vou aos lugares e as pessoas põem pouquinha comida, eu falo: ‘Não, amor, pode pôr’ [risos] . ”

Fama

“A fama tem seus ônus e bônus, e talvez eu tenha tido alguns momentos de deslumbre natural, uma visão ingênua, idealizada. Mas meu estilo de vida me ajuda. Sou muito caseira e não tenho coisas a esconder. ”

 

Feminismo

 

“Sou alucinada por mulheres fortes. Muitas mulheres passaram por processos dolorosos para que hoje pudéssemos votar, dirigir, ralar e nos expressar. Eu sou uma mulher forte. Mas também sou frágil, delicada, também quero colo. Nós mulheres somos tudo isso. E cada vez mais estamos deixando fluir quem somos e deixando de agradar. Acho que tudo isso que está acontecendo no nosso país, em relação às violências de gênero, nada mais é do que a gente deixando a nossa natureza aflorar. E isso deixa quem está no poder inseguro, e insegurança gera violência. E vou te falar, eu amo os homens. Falar de feminismo não é odiar homens, é você ter o direito de não ser violentada."

 

Futuro

 

“Quero fazer uma vilã que não seja cômica. Talvez. Será que eu quero mesmo? Vamos ver. E eu acho que já tenho um nome e um peso para começar a produzir. Quem sabe daqui a pouco?”

 

Legado

 

“Se as pessoas me esquecerem eu não tô nem aí, não. Pode me esquecer, eu não ligo. Ó, zero. Eu não quero é ser esquecida dentro da minha casa, pela minha filha, pelos meus amigos, pelas pessoas que eu amo. O que eu quero criar de relevante está aqui dentro de mim. Quero deixar um legado de uma mulher forte que abre fronteiras e por - tas para outras mulheres. ”

Maternidade

 

“Quando estou fazendo novela, fico toda desequilibrada. Então fiquei seis anos sem fazer para me dedicar totalmente à minha filha. E agora estamos tendo uma adolescência deliciosa por causa dessa dedicação. Foi a melhor coisa que fiz."

Motivação

“Eu estava querendo parar de atuar por não encontrar mais sentido no que eu fazia quando a Larissa de Verdades Secretas chegou para mim. Pensei, Meu Deus, isso é forte. Tenho que me disponibilizar de corpo e alma para botar uma luz nesse lugar que poucos olham. A gente só fala: ‘Ai, esses alienados, zumbis, drogados’. Essas pessoas têm humanidade, história, família, sentimento... E me disseram: ‘Se não gostarem da sua personagem, se acharem pesada, você vai morrer’. Então tive o desafio de criar uma personagem com tanta humanidade a ponto de as pessoas terem compaixão e não quererem a morte dela. Foi quando vi que aquilo tinha um poder absoluto com a sociedade que encontrei a minha profissão. Ali que eu comecei a gostar do que faço. Encontrei o sentido para fazer o que eu faço quando o dinheiro já me é seguro.

 

Preconceito

 

“Lembro de ter sido esculachada por uma agência de modelos quando fui tentar me inscrever. Eu tinha 16 anos e raspava a sobrancelha, descoloria o cabelo... Minha estética era muito parecida com a das minhas amigas travestis, que me vestiam para os concursos de beleza. Depois que saí do Big Brother, essa mesma agência veio atrás de mim. ”

Propósito

 

“Meu primeiro contato com a profissão de atriz foi como telespectadora. Não tinha muito diálogo em casa, com minha mãe costureira, meu pai pedreiro, de interior... não tinha essa coisa de refletir, de pensar. Era uma realidade bem dura, igual à de muita gente. Então quando eu assistia à TV, aquilo me fazia refletir e eu ficava remoendo aquilo. E aquilo me fazia bem. Aí, quando comecei a trabalhar com isso, pude sentir pela primeira vez o contato com a repercussão de uma questão social. Até quando a personagem não tem nada eu fico cavoucando para achar o que criar de reflexão para essa Grazi que eu fui. Fama para mim é poder tocar em lugares de reflexão. Não consigo pensar numa notoriedade que não faça isso. Eu faço para aquela menina que fui, até porque tem várias dela assistindo."

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