'Fui processado dez vezes. Ganhei todas', diz Antonio Fagundes sobre público que o pôs na Justiça por cobrar pontualidade
01/07/2026

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Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', ator, que lidou com gente esmurrando porta de teatro e com polícia, também revelou que deixou de ir ao cinema por conta da falta de educação das pessoas: 'Não estão interessadas em quem está ao lado. Por que não ficam em casa falando no celular?'
Antonio Fagundes falou do fato de ter se tornado uma voz ativa na defesa da pontualidade dos espetáculos. Em entrevista ao videocast 'Conversa vai, conversa vem', o ator explicou os motivos que o levam a respeitar os horários a ferro e a fogo, mesmo diante da grita da plateia. Também revelou que deixou de ir ao cinema por conta da falta de educação das pessoas. Leia trecho abaixo:
Se tornou essa voz ativa na defesa da pontualidade dos espetáculos...
A pontualidade é a ponta do iceberg. O cuidado que tive com a plateia começou na escolha do texto que imaginei interessar um número grande de pessoas. Não sou um pavão que está se pavoneando diante da plateia, tenho uma responsabilidade. Depois, escolho a equipe, o teatro, pelo qual pago caro. Depois são meses de ensaio até abrir as portas para o público e jogá-lo dentro daquele universo. Aí, chega uma pessoa atrasada... Não posso deixar entrar!
Mas as pessoas não lidam bem com isso. Já deu exército e polícia em porta de teatro com gente esmurrando a porta, você foi processado várias vezes...
É verdade. Deu muita confusão. São poucas pessoas, mas ruidosas, fazem barulho, quebram a porta do teatro, são mal educadas. Fui processado umas dez vezes, mas a gente acaba ganhando sempre. Porque está escrito lá, eu anuncio no material. As pessoas falam: "É um desrespeito com o artista". Não! Pode fazer barulho, acender a luz que continuamos fazendo teatro, somos treinados pra isso. Se não, não conseguiríamos fazer teatro de rua, com ônibus passando, gente atirando coisa. Temos essa possibilidade de fazer "apesar da plateia', mas não queremos que seja assim. É para ela que estamos fazendo. Não queremos barulho para não atrapalhar quem concordou com esse contrato entre nós: "Vai nesse endereço, tal hora, te dou esse lugar na fila X, você senta, fica quietinho que vou te contar uma história por duas horas que vai modificar sua vida".
É verdade que deixou de ir ao cinema por causa da falta de educação das pessoas?
Com certeza! Está sendo muito chato. Não é nem o fato de ficarem comendo ou falando, é porque não estão interessadas em quem está ao lado. Então, me pergunto: "Por que não fica em casa falando no celular?". Não precisa ir atrapalhar os outros.
Novela da Globo
Antonio Fagundes nunca morreu tanto. Foi o que ele disse sobre as diversas cenas gravadas para dar conta do fim de Arthur Brandão, seu personagem na novela das 21h, "Quem ama cuida". O ator concordou que a morte do empresário foi suspeitíssima e deu seu palpite sobre uma possível volta dele à novela.
A morte do seu personagem na novela foi suspeita. Há chances de você voltar? Ouvi dizer que o autor escreveu oito versões da cena do crime...
Nunca morri tanto na minha vida (risos). Acho que não tem chance de ele voltar, mas Walcyr (Carrasco, o autor) gosta dessa coisa meio espírita... De repente, pode voltar um fantasminha, um flashback, não sei...
Como foi voltar às novelas, após seis anos afastado da TV. Sentiu diferença?
Está diferente, sim, por diversas razões. A principal delas é a tecnológica muito melhor, mais apurada, mas que exige mais tempo. E isso, para mim, é uma pena, porque a grande vantagem da televisão é exatamente a rapidez. E isso é um processo brasileiro, nenhum ator americano se submeteria ao que a gente se submete todos os dias para gravar uma novela, mesmo com a lentidão de hoje. Hoje, é uma luz mais elaborada. Antes, eram dois refletores e saía fazendo. Agora, tem lente que capta melhor a sua pele, então, tem que ser uma luz mais caprichada porque não tem pessoa que resista a isso... Aparece até os poros! Mas isso aí exige tempo. Antes, eram quatro câmeras interligadas para fazer televisão rapidamente. Um diretor de TV ia cortando as imagens de uma câmera para outra. Aquilo já saía praticamente montado. Agora, essas câmeras são independentes. Então, é um processo mais longo.
Novelas ajudaram a moldar a cultura brasileira. Plataformas digitais ampliaram a oferta de conteúdo, mas também fragmentaram audiências. Acha que a TV ainda tem capacidade de criar experiências coletivas, produzir fenômenos culturais que mobilizem milhões de pessoas no mesmo tempo?
Não podemos abrir mão da TV aberta. É uma conquista que deveria ser preservada, porque propicia o encontro. Faz com as pessoas discutam, no dia seguinte, sobre um tema comum. Assiste-se ao mesmo produto juntos. Isso cria um laço, um entrosamento social que nenhum outro veículo é capaz de proporcionar com essa dimensão. Um capítulo de uma novela atinge ao mesmo tempo, na TV aberta, 60 milhões de pessoas só no Brasil. Como jogar fora uma coisa dessas?
Está certo que o streaming, poder assistir a hora que você quiser, no veículo que você quiser, é uma maravilha. Mas você assistiu uma série que eu não estou assistindo, e vai me falar: "Tô assistindo a uma série.." E que: "Qual? Não, estou vendo outra". E acabou o nosso papo. Ao passo que o capítulo da novela atinge nós assistimos juntos, no mesmo horário, e vamos conversar exatamente o que se passou naquele tempo. Através da TV aberta temos a possibilidade de criar o diálogo entre as pessoas em relação a um único produto. Não consigo entender porque querem abrir mão disso... É preciso continuar investindo nessa possibilidade.
Enxerga a inteligência artificial como ameaça à criatividade humana?
Daqui a pouquinho, vamos colocar na porta do teatro: 100% humano. Porque pode acontecer de criarem uma holografia ou robôs de Antonio Fagundes e Christiane Torloni (casal icônico da TV e do cinema, que se encontra pela primeira vez no teatro, na peça "Dois de nós") interagindo com plateia também de robôs. É exponencial o crescimento da tecnologia e não sabemos onde vai dar, nenhum futurólogo é capaz de dizer o que vai acontecer. Não temos mais controle, tudo pode acontecer. Menos no teatro.
É uma ameaça: podem pegar a nossa voz, nossa imagem, nossa interpretação e reproduzir. Sabemos que a inteligência artificial vai fazer um filme com um cara que morreu. Mas não é possível se relacionar com um robô da mesma forma com que se relaciona com um ser humano. E isso o teatro proporciona todos os dias. É por isso que vemos um único espetáculo quando vamos ao teatro. Aquele espetáculo jamais se reproduzirá. Aquela energia, no dia seguinte, mesmo que sejam as mesmas pessoas, não será a mesma. Essa magia só o teatro tem.

























