Aos 63 anos, Paula Toller revela treino pesado para turnê de Kid Abelha: 'Duas horas de show é uma maratona'

11/06/2026

Fonte: revistamarieclaire.globo.com Por Giulia El Houssami

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Quatro décadas após sua estreia nos palcos, artista relembra sua trajetória como uma das primeiras vocalistas de rock do Brasil e fala sobre a preparação física intensa para encarcar turnê de celebração da banda

Em 1982, Paula Toller subiu ao palco do Circo Voador, no Rio de Janeiro, para performar pela primeira vez. Naquela noite de novembro, a garota de cabelos dourados cantou os sucessos iniciais de Kid Abelha e os Abóboras Selvagens. “Quando começamos, esse nome era uma piada. Na época, faziam sucesso bandas com nomes engraçadinhos, como Barão Vermelho e Paralamas do Sucesso.”

Pouco tempo depois, os integrantes acabaram concordando que Kid Abelha era apelido suficiente para marcar a história do pop rock nacional.

Agora, mais de quatro décadas depois da formação inicial, Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato voltam às estradas para a turnê Eu tive um sonho, com apresentações por diversas capitais brasileiras. Em entrevista a Marie Claire, a cantora afirma que o retorno só foi possível neste momento graças a uma transformação no cenário da música nacional.

“Depois da pandemia aconteceu uma explosão de grandes shows de artistas brasileiros. Antes, esse tipo de show em estádio ou arena acontecia só com os estrangeiros. De repente, as empresas do showbiz brasileiro perceberam que os artistas nacionais tinham público. Começaram a pipocar essas turnês e nós recebemos uma proposta, pensamos bastante tempo sobre ela e achamos que seria legal, principalmente por haver gente nova que não conheceu nossos shows.”

Ela faz questão de deixar claro, porém: não se trata de um retorno definitivo, apenas uma série de apresentações pontuais.

 

“A ideia é celebrar, não voltar.”

 

A cantora também descarta o lançamento de novas músicas ou álbuns como parte do reencontro e afirma que tem gostado de nutrir uma carreira solo. Ainda assim, reconhece que a turnê traz consigo uma sensação única de festa, com a oportunidade de receber e cantar ao lado de gerações mais novas, nostálgicas de uma realidade que não conheceram.

Quando Kid Abelha dominava as paradas das rádios brasileiras na década de 1980, o Brasil vivia um contexto bastante distinto. Com a transição da ditadura militar para um regime democrático, Toller lembra que havia uma euforia política, cultural e também musical.

Naquele período em que a participação em programas de rádio e televisão, como o Programa do Chacrinha e o Globo de Ouro, ambos da TV Globo, consolidavam as bandas de maior prestígio, a vocalista foi uma das primeiras mulheres a conquistar protagonismo como líder de um conjunto de pop rock.

“Recentemente vi um post de um radialista com fotos de todas as bandas brasileiras que foram àquela rádio. Em mais de 20 fotos, eu era a única mulher.” Ao analisar o passado a partir das lentes do presente, a cantora admite que não percebia, à época, quanto sua presença representava uma ruptura.

 

“Acredito que tive alguns privilégios, porque eu era muito bem tratada. Ao mesmo tempo, existia essa percepção do ‘clube do bolinha’, de que só tinha menino em bandas de rock.”

 

Ela também conta que, no início da carreira, teve dificuldade de mostrar ao público sua versão mais autêntica. Jovem, cantando abertamente sobre paixões, dilemas românticos e sexo, viu sua imagem ser moldada pela gravadora a partir de estereótipos femininos. “Os vídeos que começaram a fazer com as nossas primeiras músicas me colocavam nesse papel de namorada sofredora. E eu aos poucos fui percebendo que não era isso; tinha ali uma particularidade nas letras, uma coisa meio agridoce.”

Hoje, a compositora dos hits Pintura íntima e Como eu quero percebe que é a natureza múltipla das músicas – entre o poético e o literal, entre a paixão e o sofrimento – que torna seus versos atemporais. “Desde quando comecei a escrever, eu procurava retratar minha vida. Claro que com adaptações, mas eu gostava de escrever sobre relacionamentos de uma forma contemporânea.”

Embora as canções do Kid Abelha sejam recebidas no palco com o mesmo entusiasmo de 40 anos atrás, Toller percebe em si mesma uma transformação. Para ir da garota de 20 anos que performava sem muita confiança à artista admirada pela potência de suas apresentações ao vivo, ela afirma que foi preciso muita preparação.

“Comecei a investir tempo em atividade física, porque enfrentar duas horas de show é uma maratona. Tem que ter saúde, força muscular, apoio vocal, tem que estar malhando. Já faz mais de dez anos que fiquei diabética, e isso também me forçou a ter uma alimentação mais balanceada. Todas essas coisas que faço hoje não são necessariamente para ficar bonita. Beleza é uma consequência.”

Para muitas mulheres que constroem uma carreira sob o olhar público, o envelhecimento pode ser um tema delicado. Toller diz de bate-pronto, com firmeza, que para ela, não. “Não fico preocupada porque não tenho muito o que fazer. Estou o melhor possível em cada fase. Não tenho essa paranoia de me esconder por causa de uma ruga. Já fiz alguns procedimentos, mas parei de fazer porque não gostava do resultado, me sentia outra pessoa.”

Entre ensaios e apresentações, ela encontra equilíbrio nos encontros cotidianos com a família. No ano passado, a vocalista se tornou avó pela primeira vez, quando seu filho Gabriel Toller Farias, fruto de seu casamento com Lui Farias, introduziu à família a pequena Maya. “É outro papel. Por causa da turnê, estamos ensaiando nos fins de semana, então faço questão de almoçarmos juntos. Depois, a vovó sai para ensaiar.”